A primeira-dama da França, Brigitte Macron, e o presidente Emmanuel Macron movem uma ação sem precedentes contra a comentarista americana Candace Owens por difundir uma teoria da conspiração sobre sua identidade de gênero, marcando um novo e tenso capítulo na guerra contra as fake news globais.
Por Jardel Cassimiro | para a Rádio Teotônio FM
Num movimento que sublinha a crescente toxicidade do discurso público e o alcance transnacional da desinformação, o presidente da França, Emmanuel Macron, e a primeira-dama, Brigitte Macron, levaram sua luta por dignidade e verdade para um tribunal nos Estados Unidos. O casal presidencial iniciou uma ação por difamação contra a influente comentarista de direita Candace Owens, que tem utilizado suas vastas plataformas digitais para promover a alegação infundada de que Brigitte Macron nasceu homem.
A decisão de buscar reparação legal em solo americano representa uma escalada significativa na resposta do casal a uma campanha de mentiras que, segundo eles, foi "dolorosa" e "injusta". Em uma medida extraordinária, os advogados dos Macron afirmaram que estão preparados para apresentar "fotos e laudos científicos" para refutar conclusivamente as alegações, transformando um tribunal de Delaware em um palco improvável para a defesa da identidade de uma das mulheres mais proeminentes do mundo.
A ação judicial não visa apenas a responsabilização de Owens, mas também expõe a anatomia de uma teoria da conspiração moderna. A alegação de que Brigitte Macron seria, na verdade, seu irmão, Jean-Michel Trogneux, que teria transicionado de gênero, não se originou com a comentarista americana. A gênese dessa narrativa remonta a 2021, na França, quando duas mulheres, se apresentando como "jornalista independente" e "médium", publicaram um vídeo de quatro horas no YouTube detalhando a suposta farsa.
Naquela época, a teoria circulou em nichos da extrema-direita francesa e em círculos conspiratórios, resultando em processos por difamação movidos pela primeira-dama na justiça francesa. Embora o casal tenha obtido algumas vitórias iniciais, o sistema legal francês, com suas robustas proteções à liberdade de expressão, apresentou desafios.
O ponto de inflexão ocorreu quando Candace Owens, conhecida por suas posições polêmicas e forte alinhamento com a direita americana, adotou e amplificou a história para seu público de milhões de seguidores. Em março de 2024, ela declarou em suas redes sociais que "apostaria toda a sua reputação profissional" na veracidade da alegação. A partir daí, a teoria ganhou tração internacional, sendo impulsionada por algoritmos e pela polarização política que define a era digital.
Para os Macron, a campanha de desinformação transcendeu o insulto pessoal, tornando-se uma distração política e um ataque misógino com claras conotações transfóbicas. Em declarações anteriores, o presidente Macron já havia condenado as mentiras como "misoginia comum" e lamentado a credulidade com que tais falsidades são recebidas por uma parcela do público. A decisão de processar Owens nos Estados Unidos, onde ela reside e opera suas empresas, é uma estratégia para combater a fonte da amplificação em massa e buscar um veredito em um sistema legal diferente.
Especialistas em comunicação e direito apontam que o caso é emblemático dos desafios enfrentados por figuras públicas na era da pós-verdade. A ação dos Macron testa os limites da liberdade de expressão versus o direito à honra e levanta questões complexas sobre a jurisdição em casos de difamação online. Para vencer, a equipe jurídica do casal precisará provar não apenas que as declarações de Owens são falsas, mas que foram feitas com "malícia real" — um padrão legal elevado na justiça americana, que exige a demonstração de que o autor sabia da falsidade ou agiu com desconsideração imprudente pela verdade.
Enquanto a defesa de Owens se apoia no direito à liberdade de expressão, garantido pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA, e classifica o processo como uma tentativa de intimidação por parte de um líder estrangeiro, os Macron o enquadram como uma "questão de honra".
Este confronto judicial não é apenas sobre a identidade de Brigitte Macron. É uma batalha sobre a natureza da verdade no século XXI, a responsabilidade das personalidades da mídia e a capacidade das instituições democráticas de se defenderem contra ataques coordenados de desinformação que visam minar a confiança e inflamar o ódio. O resultado, qualquer que seja, reverberará muito além das paredes do tribunal, servindo como um marco na contínua luta global contra as fake news.
