Presidente brasileiro será o primeiro líder mundial a discursar no Debate Geral em Nova York, um privilégio mantido pelo Brasil há quase sete décadas por razões que mesclam diplomacia, pragmatismo e história.
Por Jardel Cassimiro, para a Rádio Teotônio FM
NOVA YORK, EUA – Os olhos da diplomacia mundial se voltarão para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na manhã desta terça-feira (23), quando ele subirá ao púlpito da Organização das Nações Unidas (ONU) para proferir o discurso de abertura do Debate Geral da 79ª Assembleia Geral. O pronunciamento, previsto para as 10h (horário de Brasília), reafirma uma das mais duradouras tradições do multilateralismo: a de que cabe ao Brasil a honra de ser o primeiro orador do evento.
Logo após a fala de Lula, discursará o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seguindo o costume de que o país anfitrião seja o segundo a se pronunciar. A Assembleia Geral, que reúne anualmente em Nova York os 193 Estados-membros da organização, é o principal palco do debate político global, onde cada nação tem a oportunidade de apresentar sua visão sobre os desafios do planeta.
Mas por que o Brasil sempre fala primeiro? Embora a prática tenha se consolidado a partir de 1955, sua origem é cercada por diferentes teorias que remontam aos primórdios da ONU no pós-guerra.
Uma das hipóteses sugere que o privilégio teria sido uma espécie de "prêmio de consolação" diplomático, oferecido ao Brasil por não ter conquistado um assento permanente no prestigioso e poderoso Conselho de Segurança da ONU. Outra corrente aponta para o contexto da Guerra Fria: para evitar um confronto direto sobre quem deveria iniciar os trabalhos — os Estados Unidos ou a então União Soviética —, o Brasil teria sido escolhido como uma nação neutra e conciliadora, capaz de inaugurar o debate sem acirrar as tensões.
No entanto, a explicação mais difundida e aceita nos corredores da própria ONU é muito mais pragmática. Conforme relatou Desmond Parker, ex-chefe de protocolo da organização, à rádio americana NPR em 2010, a tradição nasceu da voluntariedade brasileira. "Em tempos muito antigos, quando ninguém queria falar primeiro, o Brasil sempre se oferecia para falar primeiro. E assim ganhou o direito de falar primeiro na Assembleia Geral", explicou Parker.
O chamado "Debate Geral", que se inicia com o discurso de Lula, não é um debate no sentido estrito da palavra, mas uma série de pronunciamentos individuais. Cada líder tem a chance de expor suas prioridades, preocupações e propostas sobre o tema central do encontro e a conjuntura global. Nesta terça-feira, mais uma vez, caberá ao Brasil a responsabilidade de dar o tom inicial a essa crucial conversa entre as nações.