Em tom contundente, presidente brasileiro classifica ataques do Hamas como 'indefensáveis', mas afirma que 'nada justifica' a resposta de Israel; fala gerou reações imediatas e estabeleceu a posição do Brasil no conflito.
Por Jardel Cassimiro, para a Rádio Teotônio FM
NOVA YORK, EUA – Em um discurso de abertura que ecoou com força no plenário da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, adotou nesta terça-feira (23) sua mais veemente retórica sobre o conflito no Oriente Médio, ao classificar a situação na Faixa de Gaza como um "genocídio em curso".
Seguindo a tradição de o Brasil ser o primeiro país a discursar, Lula utilizou a mais importante tribuna da diplomacia mundial para estabelecer uma posição dura e nuançada. Ele iniciou sua crítica ao conflito lamentando a ausência da delegação da Palestina, que foi impedida de participar presencialmente do evento após o governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, ter revogado os vistos de seus membros.
O presidente brasileiro foi enfático ao condenar o terrorismo, mas traçou uma linha clara sobre a resposta que considera desproporcional. "Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo", declarou Lula, para em seguida sentenciar: "mas nada, absolutamente nada justifica o genocídio em curso em Gaza".
A escolha da palavra "genocídio", um termo de extrema gravidade no direito internacional, gerou reações imediatas. A delegação de Israel, presente no plenário, demonstrou visível desconforto, enquanto diplomatas de países árabes e do Sul Global acenavam em concordância. Fontes da diplomacia americana, em condição de anonimato, classificaram a fala como "dura" e "pouco construtiva".
Lula aprofundou sua crítica ao afirmar que as privações impostas à população civil palestina são uma tática deliberada de guerra. "Em Gaza, a fome é usada como arma de guerra", acusou o presidente, em um dos momentos de maior impacto de seu pronunciamento.
O discurso do presidente brasileiro não se limitou ao Oriente Médio. Como esperado, ele também abordou temas caros à política externa de seu governo, como a necessidade de uma reforma urgente nas instituições de governança global, incluindo o Conselho de Segurança da ONU, o combate à crise climática e a luta contra as desigualdades sociais e econômicas.
No entanto, foi sua posição sobre Gaza que definiu o tom de sua participação. Ao equilibrar a condenação inequívoca ao Hamas com uma denúncia contundente das ações de Israel, Lula busca consolidar o Brasil como uma voz de liderança entre as nações em desenvolvimento, defendendo uma solução de dois Estados e o fim imediato do conflito. A repercussão de suas palavras, no entanto, deverá pautar as reuniões bilaterais e os debates nos corredores da ONU ao longo de toda a semana.